Presidente Lula,Existem momentos raríssimos em que o governante precisa pedir a um aliado que dê um passo para trás, não como confissão de culpa, mas como a mais inteligente contribuição à paz nacional.O Brasil está passando por esse momento.Presidente, chegue junto ao ministro Alexandre de Moraes. Converse muito reservadamente, com respeito pela sua história e pela independência do Supremo Tribunal Federal. Diga-lhe, com a experiência de quem atravessou cacetadas, prisões, derrotas, vitórias e quatro décadas de tempestades políticas, que nenhum homem pode se tornar maior do que a instituição que representa, em um país pacífico como o Brasil.Peça-lhe que considere deixar voluntariamente o Supremo.O senhor não tem poder constitucional para demiti-lo. A independência do Judiciário é uma garantia da democracia. Os ministros possuem vitaliciedade, e compete ao Senado processá-los e julgá-los por crimes de responsabilidade, conforme o artigo 52 da Constituição.Uma eventual saída, fora desse processo, dependeria de decisão pessoal do ministro. Esta carta, portanto, não propõe uma ordem presidencial. Propõe um apelo macho, político e humano. O ministro está entre a Câmara, o Senado e a Presidência.O problema já ultrapassou os processos, as decisões e os recursos. Alexandre de Moraes transformou-se, com ou sem razão, no personagem permanente da disputa política. Para milhares de brasileiros, ele representa a defesa da democracia. Para outros milhões, tornou-se o símbolo de uma Justiça excessiva, má, personalista.Essa divisão não pode ser simplesmente ignorada.Justiça não é vingança. Justiça também não é espetáculo, ameaça ou demonstração de força. Ela deve punir quem cometeu crimes, proteger quem foi injustiçado e, sobretudo, convencer a sociedade de que as mesmas regras valem para todos. Os pacíficos brasileiros têm pavor de, um dia, serem julgados pelo Ministro Moraes.Quando uma decisão judicial precisa ser defendida diariamente por políticos, jornalistas e militantes, alguma coisa deixou de funcionar. A Justiça deve falar principalmente por suas provas, seus fundamentos e seus limites. Quando uma brasileira pega 14 anos de prisão por uma pixação, com um batom como arma letal, esse crime deve ser muito bem explicado. E nunca foi!A crise recente dentro do próprio Supremo aumentou a inquietação. O presidente da Corte, Edson Fachin, aguarda explicações dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça para decidir se o conflito será levado ao plenário. Fachin declarou corretamente que nenhuma autoridade está acima da Constituição e nenhum Poder está acima da lei. Uma decisão aconteceu e desagradou a toda a nação.Também merece atenção o encontro que Fachin teria com dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil. A reunião, prevista para 9 de setembro, foi cancelada ou adiada, sem nova data anunciada. Convém sermos exatos: não houve uma “negativa definitiva” à OAB, mas o adiamento, em plena crise, passou uma mensagem ruim. Quando o país pede diálogo, fechar a porta — ainda que temporariamente — produz mais desconfiança que segurança.O desfile de 7 de setembro mostrou a tentativa de preservar a imagem de normalidade entre os Poderes, reunindo Lula, Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta. Ao mesmo tempo, manifestações políticas realizadas em outras cidades revelaram que o conflito em torno do Supremo continua muito vivo. As tentativas de quantificar as plateias, entre Brasília e São Paulo, não conseguiram convencer nenhum brasileiro.Falta menos de um mês para o primeiro turno das eleições, marcado oficialmente para 4 de outubro. O nosso Brasil precisa chegar às urnas discutindo emprego, juros, segurança, saúde, gasto público, educação e desenvolvimento — não transformando um ministro do Supremo, e sua aceitação, no décimo terceiro candidato à Presidência.Alexandre de Moraes não estará na urna, mas estará em quase todos os discursos. Isso prejudica o Supremo, contamina a eleição e oferece gasolina e fósforo aos que desejam desacreditar, antecipadamente, o previsível e rachado resultado.Presidente Lula, o senhor conhece o poder dos gestos. Uma conversa franca não diminuiria o Supremo nem significaria rendição aos seus inimigos. Poderia, ao contrário, proteger a Corte, reduzir a temperatura política e retirar das eleições uma presença que se tornou maior do que qualquer processo.Talvez Moraes não aceite. Talvez considere injusto abandonar o cargo por causa da pressão política. É um argumento compreensível. Mas a prudência não pergunta apenas quem tem razão. Pergunta também qual atitude preserva melhor o país.O ministro pode vencer todos os processos e, mesmo assim, perder a capacidade de unir a sociedade em torno das decisões que profere. Pode possuir autoridade legal e já não conservar autoridade moral suficiente para pacificar.Presidente, peça, com a sua reconhecida bondade, gentileza e brasilidade. Peça sem ameaça, sem acordo secreto e sem promessa de proteção. Peça apenas que ele coloque o nosso Brasil brasileiro acima do cargo.Às vezes, sair não é fugir. É impedir que o país inteiro continue brigando para decidir quem venceu.Roberto Caminha Filho, economista, brasileiro, pacifista, liberal, torce pela conversa verde-amarela do nosso Presidente com o seu Ministro. Que o Filho os ilumine!











